Ageflor – Associação Gaúcha de Empresas Florestais

Projeto Reflora inicia treinamento prático em São Francisco de Paula e Santa Maria

O treinamento prático do projeto Reflora, voltado à recuperação de áreas degradadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, teve início nesta terça-feira (19/8), na Serra Gaúcha. As atividades reuniram 16 participantes no Centro de Pesquisas e Conservação da Natureza Pró-Mata, da PUCRS, em São Francisco de Paula. Ao longo do dia, foram realizados alinhamentos teóricos, demonstrações práticas de coleta de ramos e aplicação da técnica de enxertia em plantas nativas.

A iniciativa é coordenada pelas secretarias estaduais da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), em parceria com a CMPC, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e instituições gaúchas como PUCRS, UFRGS, UFSM e Unisc.

Jackson Brilhante, coordenador do projeto pela Seapi e responsável pelo Plano ABC+ RS, destacou a relevância do treinamento. Segundo ele, dominar o processo de resgate de DNA, as técnicas de coleta, armazenamento, enxertia e manejo de mudas é essencial.

“Além de resgatar espécies florestais nativas para auxiliar na recuperação de áreas afetadas pelas enchentes, o projeto visa estabelecer áreas de produção de sementes e mudas de alta qualidade, com foco no Rio Grande do Sul, ampliando essas ofertas no Estado”, afirma.

Mais rápido no florescimento

A técnica utilizada consiste no resgate de ramos de árvores saudáveis e na enxertia — conexão de galhos de duas plantas —, que induz o florescimento precoce de novas mudas, acelerando seu crescimento em torno de 70% em comparação ao tempo natural na floresta.

Diego Balestrin, coordenador operacional do projeto Reflora, explicara que a parte prática inclui a identificação de matrizes, a coleta de ramos e o acondicionamento do material para transporte, destacando a parte experimental da iniciativa. 

“Resultados promissores no resgate de DNA e na indução da floração precoce, desenvolvidos em Brumadinho pela UFV, consolidaram-se e se expandiram para os biomas Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado. Agora estamos iniciando uma etapa crucial para a implementação do projeto Reflora”, ressalta.

Na quinta-feira (21/8), uma nova etapa do treinamento foi realizada em Santa Maria.

UFSM integra parceria para recuperar áreas de mata nativa

A UFSM é uma das quatro universidades selecionadas para fazer parte do projeto, juntamente com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

Nesta quinta-feira (21) foi realizada a primeira atividade prática do programa, o curso de escalada de árvores nativas, no Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa Florestal (Ceflor), órgão estadual situado em Santa Maria, um dos locais onde as mudas serão produzidas. O treinamento para a coleta de material genético reuniu professores e alunos do mestrado e doutorado em Engenharia Florestal da UFSM. 

Como funciona a coleta do material genético?

Para recuperar as áreas afetadas pelas enchentes de 2024, o Reflora busca desenvolver novas mudas das árvores nativas que foram danificadas. Para esse processo, o grupo vai aplicar uma tecnologia desenvolvida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) – que também integra o projeto – após o desastre de Brumadinho, em Minas Gerais. Assim, as mudas vão levar entre cinco e oito anos para florescer após o plantio, enquanto o tempo normal seria de 20 a 30 anos.

O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal da UFSM, Jorge Farias, explica que a técnica, chamada de multiplicação vegetativa, não acontece por sementes, e sim pela coleta do material vegetativo, que são os galhos das árvores. São esses galhos que darão origem a novas mudas. “O resgate de DNA, o resgate genético, é focado nessas árvores ameaçadas, retirar material delas e reproduzir novas mudas, para que se garanta a permanência desse germoplasma, ou seja, dessa variabilidade genética. Com isso vamos conseguir ter um equilíbrio ecológico do ponto de vista da perpetuidade e da continuidade das florestas nativas”, explica o professor.

Além de favorecer o florescimento antecipado das plantas, possibilitando que espécies que normalmente demorariam anos para gerar flores e frutos o façam em muito menos tempo, a técnica também contribui para auxiliar árvores nativas que estão ameaçadas por outras razões além dos desastres naturais, como o extrativismo e o desmatamento. “Além do resgate desse material genético para preservação, vamos conseguir também desenvolver material genético para ser utilizado na ótica da conservação pelo uso, que na nossa opinião, como cientistas da engenharia florestal visando à sustentabilidade, é a melhor estratégia para garantir a perpetuidade dos nossos recursos florestais, especialmente as florestas nativas”, enfatiza Farias. 

Trabalho em parceria

Lançado em março, o Reflora prevê a produção de no mínimo seis mil mudas de árvores com uso da tecnologia de resgate de DNA e indução de florescimento em espécies nativas. A iniciativa é realizada por meio da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), em conjunto com a multinacional chilena CMPC, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), a UFV e as instituições de ensino gaúchas.  

Farias destaca a importância de a UFSM integrar esta parceria. “É muito importante esse trabalho em conjunto, pois vamos usar toda a expertise que nós desenvolvemos aqui na UFSM e vamos somar à expertise desenvolvida pela Universidade Federal de Viçosa para resgatar esse material genético”, destaca, acrescentando ainda que a participação das universidades públicas no projeto permite a externalização da produção científica e oportuniza novas formações técnicas e científicas aos alunos.

Trabalho de campo

O processo envolve quatro etapas principais: coleta de material genético de plantas saudáveis, enxertia, florescimento e plantio das mudas. O objetivo é preservar o DNA de espécies ameaçadas de extinção e contribuir para o restabelecimento dos ecossistemas.

Das oito espécies mapeadas pela PUCRS e UFRGS no Pró-Mata, a goiabeira-serrana e o araçá tiveram material genético coletado e passaram por enxertia no treinamento.

 O professor da PUCRS Leandro Astarita afirma que a universidade foi responsável pela identificação prévia das plantas. “Estamos promovendo um treinamento para produzir mudas de alta qualidade de espécies nativas do Rio Grande do Sul. O objetivo é ampliar a variabilidade genética e fornecer mudas tanto para o reflorestamento quanto para a população local. Hoje coletamos a goiabeira-serrana, que, além da importância ambiental, tem frutos aproveitados na alimentação”.

O tempo médio para restabelecer os serviços ecossistêmicos afetados varia de 20 a 30 anos. Com o projeto Reflora, a expectativa é reduzir esse prazo para 5 a 8 anos.

Plano de ação

O Reflora prevê o plantio de mais de seis mil mudas e aproximadamente 30 espécies florestais nativas, coletadas e cultivadas a partir de técnicas de resgate genético. O trabalho compreende a coleta de DNA em campo, a condução das mudas em viveiros e o plantio nas áreas mais atingidas.

Com duração prevista de três anos, o projeto terá investimento total de R$ 5,21 milhões — sendo R$ 2,86 milhões aportados pela CMPC e R$ 2,34 milhões pela Embrapii. Os recursos serão destinados à construção de estruturas físicas, serviços de coleta, compra de insumos e concessão de bolsas de pesquisa

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