Ageflor – Associação Gaúcha de Empresas Florestais

Seapi apresenta estudo sobre carbono do solo em área de produção de acácia-negra durante simpósio internacional

De 25 a 28 de junho, representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) participaram do Simpósio Latino-Americano e Caribenho sobre Pesquisa de Carbono do Solo (LAC Soil Carbon) 2025, o quarto evento da Trilha da COP 30. O encontro, que aconteceu no Rio de Janeiro (RJ), visa fomentar ações relativas ao carbono, à saúde do solo e à produção agrícola regenerativa para o desenvolvimento socioeconômico e a segurança alimentar em níveis regional e global.

Os pesquisadores Luciano Kayser Vargas, Jackson Brilhante, Altamir Bertollo e Bruno Lisboa, do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul (DDA/Seapi), participaram do Simpósio onde apresentaram os resultados preliminares de quatro estudos científicos que abordam temas centrais para a sustentabilidade agrícola, como os fluxos de gases de efeito estufa, o carbono orgânico do solo e as perdas de nitrogênio em diferentes sistemas de manejo. 

Os trabalhos apresentados foram:

  • Greenhouse gas fluxes in different yerba mate cultivation systems (Fluxos de gases do efeito estufa em diferentes sistemas de cultivo de erva-mate)
  • Soil organic carbon under different yerba mate management systems (Carbono orgânico do solo sob diferentes sistemas de manejo de erva-mate) 
  • Soil organic carbon stocks in Acacia mearnsii production areas of Southern Brazil (Estoques de carbono orgânico do solo em áreas de produção de Acacia mearnsii no Sul do Brasil)
  • Potential gaseous nitrogen losses of different urea formulations in two acid soils from Southern Brazil (Perdas potenciais de nitrogênio gasoso de diferentes formulações de ureia em dois solos ácidos do Sul do Brasil)

As pesquisas trazem contribuições relevantes para as cadeias produtivas da erva-mate, das florestas plantadas e do uso de fertilizantes nitrogenados, com foco na mitigação das emissões de gases de efeito estufa e no aumento do sequestro de carbono no solo.

“As cadeias da erva-mate e das florestas plantadas apresentam enorme potencial de acúmulo de carbono no solo. Viemos a este evento internacional compartilhar com a comunidade científica os dados gerados no Rio Grande do Sul para essas cadeias produtivas”, destacaram os pesquisadores.

O DDPA/Seapi integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (INCT-ABC), coordenado pelo professor Cimélio Bayer, do Departamento de Solos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O Simpósio Latino-Americano e Caribenho de Pesquisa de Carbono do Solo é um dos eventos preparatórios para a COP30, que ocorre em novembro, em Belém (PA). Ao longo desses três dias, o simpósio reuniu gestores públicos, pesquisadores, especialistas e profissionais do setor para trocar experiências, apresentar projetos e ideias e discutir os desafios regionais e globais na promoção de práticas agrícolas sustentáveis e na preservação da saúde do solo.

Representantes dos setores público e privado debatem desafios para o mercado de carbono

Uma mesa redonda reuniu representantes dos setores público e privado para debater iniciativas sobre crédito de carbono e esquemas de certificação na agricultura de países da América Latina e Caribe. O evento encerrou o Simpósio Latino-Americano e Caribenho de Pesquisa de Carbono do Solo (LAC Soil Carbon 2025), que reuniu 358 pessoas de 22 países no Museu do Amanhã, RJ, de 25 a 27 de junho. Entre os principais pontos acordados pelos especialistas destacam-se os muitos desafios a serem vencidos para fortalecer o mercado de carbono em nível global e a necessidade premente de integração contínua entre ciência, setor produtivo e formuladores de políticas públicas.

A representante do World Resources Institute (WRI), Emily Dionízio, apresentou o Protocolo GHG (Greenhouse Gas Protocol), o guia mais utilizado hoje no mundo para reportar remoções de carbono. Desenvolvido em parceria entre o WRI e World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), o protocolo oferece um conjunto de padrões e ferramentas globalmente reconhecidos para medir, gerenciar e reportar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de empresas e governos. Ele fornece uma estrutura para contabilizar as emissões de diferentes fontes e atividades, auxiliando na gestão e redução do impacto climático das organizações.

Segundo Dionízio, o GHG foi lançado na década de 1990 com base em valores atestados pela ciência. Em 2014, foi desenvolvido o primeiro guia voltado à agricultura brasileira. Hoje, o documento está em revisão para incorporar novos indicadores adaptados a esse setor no País. “Oitenta e cinco (85) fatores de emissão de GEE serão contemplados na nova versão”, complementou a bióloga.

A supervisora ​​Socioambiental da Agropecuária Maggi, Juliana Monti, falou sobre o programa Amaggi Regenera, uma iniciativa sustentável de certificação da agricultura regenerativa da empresa, que tem mais de 40 anos de atuação no Brasil. A Maggi tem parceria com a Embrapa desde 2021 baseada em três pilares: solo, biodiversidade e pessoas. Para cada um desses pilares, há práticas e indicadores definidos. “É um exemplo concreto de tradução da ciência para o campo, que surgiu a partir dessa cooperação”, ressaltou.

Murilo Geres, da Marfrig Global Foods, falou sobre o programa Carne Carbono Neutro, uma marca conceitual desenvolvida em parceria com a Embrapa. A base do programa é certificar produtos oriundos de sistemas que integram lavoura, pecuária e floresta (ILPF). Segundo o especialista, o programa está enfrentando problemas com o escoamento da madeira gerada pelas florestas, uma vez que a maior parte das propriedades de criação de gado está concentrada na Região Centro-Oeste, especialmente nos estados de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, e as madeireiras, na Região Sul. “Essa logística dificulta a rotina dos produtores e, especialmente por isso, hoje só temos uma fazenda certificada no Brasil”, explicou Geres.

Por isso, a Embrapa e a Marfrig vão lançar na COP30, que acontece em novembro, em Belém, Pará, o programa Carne Baixo Carbono. A iniciativa é mais simples, uma vez que é baseada apenas em práticas de manejo do solo, como a rotação de pastagem, entre outras. “Trata-se de uma ação que alia sustentabilidade e rentabilidade. Mais de 20 mil hectares de áreas de fazendas já estão sendo treinadas nessas técnicas”, acrescentou.

Telmo Borges, superintendente de Mudanças do Clima da Secretaria Estadual de Ambiente e Sustentabilidade (SEAS-RJ), citou um acordo de cooperação técnica firmado com Embrapa, que resultou em mapas de estoque de carbono orgânico do solo englobando todo o estado do Rio de Janeiro. O mapeamento foi feito em duas profundidades, 0-20 e 30-50 centímetros, na resolução espacial de 30 metros, o que equivale a aproximadamente uma escala de 1:100.000. Na primeira profundidade (0-20 cm), foram quantificadas cerca de 189 milhões de toneladas de carbono e, na segunda (30-50 cm), aproximadamente 119 milhões de toneladas. Esses dados podem subsidiar políticas públicas e inventários em larga escala, além de fomentar o mercado de créditos de carbono no estado.

Os mapas de estoque de carbono no solo estão disponíveis para a sociedade na plataforma da Infraestrutura de Dados Espaciais da Embrapa (Geoinfo).

Segundo Borges, a área de Mata Atlântica no estado abrange 1.447069,81 hectares. Dessa quantidade, 33% são de áreas preservadas com vegetação nativa; 35% outros usos e 3% de água. “Nossa meta é aumentar o montante preservado para 40% até 2050”, enfatizou.

Para o superintendente, as soluções para reduzir as emissões de carbono na agricultura vão muito além de créditos de carbono. “É fundamental investir em iniciativas sustentáveis, como a transição agroecológica dos sistemas produtivos”, concluiu.

Especialistas trazem experiências nacionais e internacionais sobre mercado de carbono

A última plenária do LAC Soil Carbon 2025, moderada por Deborah Bossio, cientista-chefe da The Nature Conservancy (TNC), debateu nesta sexta-feira (27/6) os desafios para a implementação de mercados de carbono, mostrando experiências nacionais e internacionais.

Bruno Basso, professor da Michigan State University, falou sobre experiências de mercados de carbono nos Estados Unidos da América, destacando lições aprendidas e direcionamentos para o futuro. Ele explicou que não existe um mercado federal de carbono nos EUA, mas muitas iniciativas estaduais e voluntárias surgiram nos últimos anos. Esses mercados estão evoluindo de esforços fragmentados e baseados em projetos-piloto para ecossistemas mais integrados e orientados por dados, e as lições dos programas existentes mostram a necessidade de um MRV transparente.

Edouard Lanckriet, da Bioline by InVivo, falou da experiência francesa do Selo de Baixo Carbono e as dificuldades enfrentadas. No momento, segundo o especialista, não existe um regime harmonizado de produção de carbono no solo, e os agricultores têm de utilizar esquemas e ferramentas de MRV isolados, com sistemas dispendiosos em tempo e dinheiro. De acordo com ele, um MRV público, com ferramentas desenhadas a partir da experiência do agricultor, é o caminho para fortalecer a efetividade das abordagens de inserção e compensação, que levem à transição agrícola de baixo carbono.  

A professora Beverley Henry, da Queensland University of Technology, falou sobre o esquema nacional de crédito de carbono da Austrália, que tem uma década de experiência em política de agricultura de carbono, fornecendo um estudo de caso útil sobre oportunidades e barreiras. De acordo com a especialista, as principais lições aprendidas ao longo da década são a participação voluntária dos agricultores, a importância crítica da integridade das compensações e a pesquisa científica contínua para melhorias da tecnologia MRV.

Daniel Barcelos Vargas, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), fechou a plenária falando sobre políticas para remoção de carbono no Brasil e na América Latina e Caribe. Ele ressaltou que um dos grandes desafios enfrentados ao longo da história é que modalidades que na percepção dos cientistas seriam consideradas bons créditos, o mercado não está disposto a pagar. “O reconhecimento do que é um bom crédito não é de quem produz e de quem gera, é de quem compra. E quem compra boas práticas desses créditos hoje são, spbretudo, empresas europeias e norte-americanas”, afirmou.

Painel promove debate sobre os desafios para métricas de carbono no solo

Com moderação do professor Manuel Eduardo Ferreira, da Universidade Federal de Goiás/Lapig, o painel da tarde de quinta-feira (26/6) reuniu especialistas para debater os desafios para desenvolvimento de métricas e monitoramento de carbono orgânico nos solos.

Carlos Eduardo Cerri, professor da Esalq/USP, discorreu sobre os desafios técnico-científicos e de governança para medição, relatórios e verificação (MRV) do carbono do solo em sistemas agrícolas sob condições tropicais, trazendo experiências do CCARBON da USP e seus parceiros. Já Fernando Vieira Cesário, coordenador de portifólio de carbono com foco nas soluções climáticas naturais da The Nature Conservancy do Brasil, tratou dos desafios e perspectivas para os mercados voluntários de carbono no solo, que necessita de muita ciência aplicada para desenvolvimento de parâmetros baseados em métricas e protocolos complexos, sendo o MRV parte fundamental de um projeto de mercado de carbono.

O pesquisador da Embrapa Agricultura Digital Luiz Gustavo Barioni falou sobre desenvolvimento de soluções digitais para planejamento e monitoramento na agricultura de carbono tropical, tratando sobre dados, modelos, algoritmos e economia. Barioni, que coordena as atividades da Embrapa no projeto ProCarbono da Bayer, deu detalhes do desenvolvimento de ferramentas digitais como a calculadora de pegada de carbono, desenvolvida no âmbito da parceria.

Taciara Zborowski Horst, professora na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), apresentou a iniciativa da Rede MapBiomas para mapeamento do estoque de carbono do solo do Brasil. O MapBiomas é uma iniciativa colaborativa  que envolve ONGs, universidades e startups de tecnologia dedicadas à produção de mapas anuais de cobertura de uso da terra e da dinâmica ambiental em todo o território nacional.

O também professor da UTFPR Alessandro Samuel-Rosa fechou o painel mostrando a utilização da Inteligência Artificial para integração de bancos de dados para monitoramento de carbono do solo. O professor apontou que iniciativas como as do Repositório Brasileiro de Dados de Solos (SoilData), do MapBiomas Solo e do PronaSolos demonstram o potencial da integração de diversas fontes de dados, apesar dos grandes desafios enfrentados pelas equipes técnicas, que podem ser auxiliados pela IA para enfrentá-los. 

Após o painel, uma mesa redonda discutiu os desafios da MRV das alterações no estoque de carbono orgânico do solo em terras agrícolas e a necessidade de harmonizar os métodos. A moderação foi de Suzanne Reynders, do INRAE (França), e de Senani Karunaratne, pesquisador da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO), na Austrália.

Participaram como debatedores Eric Ceschia, diretor de Pesquisa do Centro de Estudos da Biosfera Vista do Espaço (CesBio), INRAE, França; Marina Menin, chefe da Carbon Venture para a América Latina da Bayer; e William Salas, co-fundador e diretor de estratégia da Regrow Ag, nos Estados Unidos.

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