Ageflor – Associação Gaúcha de Empresas Florestais

De onde vem a lenha do RS? Como é a produção que aquece o inverno gaúcho

Todo inverno é a mesma coisa: a chegada da estação traz o típico frio gaúcho, acompanhado da umidade, da geada e da chuva. A resposta da população é imediata, com chaminés fumegantes e o aroma de lenha queimada que perfuma o ar. As lareiras acalentam os ambientes. Os fogões a lenha cozinham pratos típicos e esquentam a água do mate. As pessoas se reúnem em torno do fogo para confraternizar, alçando a lenha ao arcabouço da cultura regional.

Professor do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), José Remedi destaca que a relação da humanidade com o fogo remonta à pré-história e aos processos evolutivos, o domínio da metalurgia e a Revolução Industrial. Ele reforça, entretanto, o papel central da chama na identidade do Rio Grande do Sul.

— A origem mítica do gaúcho no campo leva ao fogo de chão e aos hábitos alimentares do churrasco e chimarrão. O fogo foi fundamental para o desenvolvimento da cultura gaúcha, e o que temos hoje é a permanência dele no cotidiano — avalia Remedi.

Produção da lenha no RS

Basta chegar o frio para que cidades sejam tomadas por caminhões apinhados de sacos de acácia-negra e eucalipto. Em Porto Alegre, estacionam em esquinas e avenidas, onde vendem para gaúchos urbanos ávidos pela tradição. A lenha vem de pequenos e médios municípios do Interior, descortinando a veia econômica da silvicultura, baseada no reflorestamento. A atividade consiste na exploração de florestas plantadas de espécies exóticas.

O mais recente ranking disponível, de 2023, identifica TriunfoPiratini Tabaí como as maiores produtoras de lenha para a geração de energia biomassa. A silvicultura é concentrada nas regiões Sul, Serra, Serra do Sudeste e Metropolitana.

A bucólica Brochier, de 4.966 habitantes, vizinha de Montenegro, no Vale do Caí, é parte do contexto. O município é sede da unidade de produção de lenha da Ki-Fogo. Empresa tradicional, compra a matéria-prima de reflorestadores da região. Toras de acácia e de eucalipto, espécies exóticas, são entregues pelo produtor contendo 1 metro ou 2,20 metros de comprimento. Depois de chegar ao pátio da empresa, a carga permanece por pelo menos um ano secando. Vencido este prazo, entra na rudimentar linha de produção.

Primeiro, a serra reduz as toras para medidas entre 25 e 33 centímetros. Por último, um trabalhador segura a lenha, ainda em formato cilíndrico, debaixo de um picador. A máquina tem um pistão pontiagudo que se choca contra o miolo da madeira, produzindo lascas. O processo é finalizado com a embalagem nos sacos, pesagem e distribuição.

Neste inverno, período de alta temporada, a Ki-Fogo produz cerca de 12,2 toneladas de lenha ensacada por dia para o consumidor final. A comercialização de junho deste ano superou em 30% o mesmo período do ano anterior. A explicação para o salto é o frio intenso registrado recentemente, afirma Valmor Griebeler, proprietário da Ki-Fogo.

— No inverno, a gente produz e vende. Não se tem volume em estoque — diz o empresário, que também atende o mercado do Paraná.

Embora o auge seja o inverno, Griebeler destaca que setembro é outro pico, impulsionado pelos acampamentos farroupilhas, onde se usa fartura de lenha para assar os costelões. As vendas reduzem dois terços no verão, mas se mantêm relevantes no fluxo do negócio pelo costume de assadores que adotaram a acácia para fazer churrasco em todas as épocas.

— Trabalho há mais de quatro décadas com lenha e todo ano se vende mais. No verão, é uma escadinha que também cresce — afirma Griebeler.

O mercado conta com empresas de diferentes portes. Em Tapes, a Bio Lenhas pode produzir cerca de 2,6 toneladas por dia na alta temporada. A aposta é no atendimento personalizado, com entrega direta ao cliente final, e produtos diversificados. Um atrativo deste ano é o eucalipto duro, originário de floresta plantada de 62 anos. A queima é mais calorífica, duradoura e produz estalinhos no início do processo.

— Eu chamo isso de sinfonia do fogo. É algo que a acácia não tem. Depende do gosto de cada um — diz Alex Fabiano Schultz, produtor florestal e proprietário da Bio Lenhas.

Outro destaque é a lenha frutífera, de árvores de cítricas e do pessegueiro, para a defumação de carnes. O produto é obtido junto a donos de pomares que, periodicamente, precisam fazer podas de rejuvenescimento em galhos.

— Frutíferas pegam o público do sabor diferenciado no churrasco — comenta Schultz.

Somente em 2023, o valor da produção de lenha no Rio Grande do Sul alcançou R$ 1,1 bilhão, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo ano, o montante superou em quase 10 vezes os R$ 128,6 milhões de produção do carvão vegetal, tradicionalmente usado para assar o churrasco, também um produto da silvicultura.

A elevada cifra registrada pela lenha tem a ver com as múltiplas finalidades: uma parte é destinada ao uso doméstico, sobretudo no inverno, mas grande parcela da produção vira energia biomassa para indústrias com caldeiras e fornalhas ou para secar grãos e aquecer aviários, impedindo que os frangos morram de frio em épocas gélidas. A queima da lenha também é tradicional em pizzariaschurrascarias e parrilladas.

Da muda ao corte

Depois de plantadas, as mudas de acácia e de eucalipto precisam, em média, de seis a oito anos para chegar ao ponto de corte. Os primeiros seis meses são decisivos, vaticina o produtor Ildo Alberto Grings, de Brochier:

— Se a formiga come o pezinho, não brota mais. O desenvolvimento depende da limpeza da área, para não deixar o inço tomar conta, e da adubação. Em um ano, a muda de eucalipto tem mais de dois metros de altura. Aí, é só esperar os anos passarem.

As terras de Paulino da Cruz, cultivador de dois hectares de reflorestamento de acácia, ficam próximas das de Grings, que tem sete hectares de floresta plantada. No início da tarde do dia 11, Cruz derrubava os vegetais com o auxílio de motosserra. O corte é feito próximo ao solo, garantindo o maior aproveitamento possível da madeira.

Embora se encontre lenha de acácia nas cidades com a casca, uma parcela dos produtores faz a remoção do invólucro. A casca é vendida separadamente: ela contém taninos, propriedade utilizada em curtumes.

Após tombar a árvore de reflorestamento, Cruz fracionou o tronco em pedaços de 1 metro de comprimento. Depois, posicionou uma das toras de pé e usou uma pequena vara para acertar golpes contra a extremidade. Isso produz um efeito de “soltar” a crosta da madeira. Cruz completa o serviço à unha: os dedos, vigorosos como alicate, terminam de arrancar a casca, fonte de renda adicional.

Griebeler, da Ki-Fogo, trabalha exclusivamente com acácia descascada. 

— A queima da casca dá mais fumaça e cheiro forte dentro de casa — destaca o empresário.

Paixão pela lenha na cidade

O ciclo da lenha encontra um incandescente amante no bairro Belém Novo, em Porto Alegre. Numa casa de dois pisos, o aposentado Milton Matos, 62 anos, passa o inverno a prender fogo em lascas de eucalipto no fogão a lenha, na lareira e na churrasqueira. Aos domingos, nos três ao mesmo tempo.

O fogão a lenha, de boca larga e profundidade, é aceso diariamente às 7h. Até a noite, é abastecido com madeira graúda, mantendo o fôlego para cozinhar a boia, esquentar a água do mate e do café de cambona, especialidade dos antigos tropeiros.

Sobre a chapa, panelas de ferro são usadas no preparo de arroz com linguiça, carreteiro, carne de panela e feijão. A paixão de Matos foi herdada do pai: no primeiro piso do imóvel, mesmo após reformas, preservou um antigo fogão a lenha construído pelo ancestral.

A fissura do porto-alegrense galopou tanto que ele construiu um pequeno galpão onde estoca e seca pilhas de lenha. E comprou um rachador movido a gasolina. A máquina empurra tocos contra uma lâmina, semelhante a um machado, partindo em lascas.

— Como vou ser frustrado na vida? Tenho tudo o que quero — filosofa Matos, sentado em frente ao fogo, rodeado por quadros com cavalos, um vidro de ovos em conserva, um painel em madeira com bois puxando carreta e música campeira ressoando ao fundo.

Símbolo transversal

Professor de História da UFSM, José Remedi destaca a “ressignificação” do fogo pela classe média-alta. Ele menciona as lareiras sofisticadas e a transformação do churrasco.

— Existe, hoje, tendência pelas parrillas uruguaias e argentinas. É um movimento das camadas médias e altas — diz Remedi.

Empresário da gastronomia de brasa, Fernando Schimanoski também indica mudanças de comportamento, embora o fogo e a lenha continuem presentes. Ele cita que o assado deixou de ser exclusivamente um hábito familiar de alimentação. Passou à condição de evento social, em que as pessoas se reúnem ao redor do fogo para confraternizar, com consumo da carne no curso de horas, acompanhada de bebida e música.

— É o pulo do churrasco atual. Uma sofisticação da brasa que levou o fogo para casamentos, eventos corporativos e formaturas. Houve uma desmistificação de que isso não combinava. O churrasco entrou muito forte na alta gastronomia —diz Schimanoski.

Ele realça a ampliação do cardápio da culinária de brasa. Do fogo não sai apenas a carne, mas também hambúrguer, risoto, lasanha, legumes, panquecas de doce de leite e brownies. Tudo assado sobre a lenha de acácia.

Contudo, destaca o professor Remedi, não há monopólio da tradição. Ele recorda que, nas últimas altas do preço do gás de cozinha, em 2021, famílias humildes passaram a coletar cavacos para cozinhar nos fogões a lenha que permanecem nas casas.

— Ao tempo em que há ressignificação, o fogo continua presente de forma popular, tanto no uso cotidiano do fogão a lenha quanto no churrasco de final de semana, que segue como ritual familiar e afetivo. O fogo se mantém um símbolo cultural transversal, com usos e significados diferentes, conforme o contexto social — avalia.

O presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda, afirma que aclimatar o ambiente residencial com a lenha, mais do que uma tradição, pode ser uma necessidade no inverno.

— Toda queima emite gás de efeito estufa, mas o uso doméstico não preocupa. O que impacta o aquecimento global é o desmatamento de grandes áreas, a supressão de vegetação nativa, as queimadas naturais e criminosas e as emissões dos automóveis nas grandes cidades — destaca.

Os reflorestadores defendem a atividade como sustentável, centrada em espécies exóticas, o que garantiria maior proteção às árvores nativas. Mesmo assim, são desenvolvidas alternativas de reaproveitamento de resíduos para produzir lenha ecológica.

Um desses produtos é o briquete fabricado pela Eco Fogo, de Viamão. É uma lenha, em formato bastão ou fragmentada, feita com serragem de eucalipto, sem adição de qualquer químico. O resíduo é comprado junto às serrarias, onde não tinha serventia, e passa por técnica de secagem em um tubo giratório e aquecido.

A serragem desumidificada é transportada para uma máquina em que o pistão acerta golpes de até 200 toneladas de pressão em porções da matéria-prima, acondicionadas dentro de uma estrutura metálica e cilíndrica. As pancadas fazem a serragem se agrupar em um bloco sólido.

A diretora comercial da Eco Fogo, Ágata Greiner, destaca características do briquete em comparação à lenha convencional: o compacto de serragem não produz fumaça nem odor, o que atrai apreciadores de lareira com problemas respiratórios. Sem resquício de umidade, o briquete tem maior poder calorífico, fator que o valoriza na indústria que faz uso da energia biomassa.

A silvicultura no RS

A silvicultura é subdividida, no levantamento anual do IBGE, em três categorias. A madeira em tora, com destaque para o eucalipto, é destinada às indústrias de celulose, papel e madeireira. A lenha, onde se enquadra o uso doméstico, serve à geração de energia biomassa. O carvão vegetal é usado tradicionalmente para assar churrasco.

Em 2023, dado mais recente do IBGE, foram produzidos no Estado:

  • 15,9 milhões de metros cúbicos de madeira em tora
  • 12,1 milhões de metros cúbicos de lenha
  • 77,1 mil toneladas de carvão vegetal

Áreas de florestas plantadas de espécies exóticas para a silvicultura

Fonte: Relatório de 2025 (ano base 2023/2024) da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor) e IBGE/PEVS 

  • Em 2023, o Rio Grande do Sul registrou 971 mil hectares de áreas de floresta plantada. Cada hectare equivale a cerca de um campo de futebol.
  • O número soma as espécies exóticas e comerciais: eucalipto (617 mil hectares), pinus (287 mil hectares) e acácia (67 mil hectares)
  • O total de área de floresta plantada inclui produtores das diferentes destinações econômicas da madeira: celulose, papel, moveleira, lenha e carvão vegetal

10 municípios com as maiores florestas plantadas no RS

Produtores atendem os diferentes setores econômicos da silvicultura. Dados de 2023

  1. Encruzilhada do Sul – 65,5 mil hectares
  2. São Francisco de Paula – 42,8 mil hectares
  3. Piratini – 40,1 mil hectares
  4. Cachoeira do Sul – 20,7 mil hectares
  5. Cambará do Sul – 19,6 mil hectares
  6. Bom Jesus – 18,9 mil hectares
  7. Triunfo – 18,44 mil hectares
  8. Butiá – 18,42 mil hectares
  9. São José do Norte – 18,41 mil hectares
  10. Mostardas – 17,2 mil hectares

10 municípios do RS com florestas plantadas que mais produziram lenha para energia biomassa

Em valores. Dados de 2023

  1. Triunfo – R$ 82,9 milhões
  2. Piratini – R$ 72,3 milhões
  3. Tabaí – R$ 69,9 milhões
  4. Canguçu – R$ 60,3 milhões
  5. Paverama – R$ 36,5 milhões
  6. Butiá – R$ 36,4 milhões
  7. Encruzilhada do Sul – R$ 23,9 milhões
  8. Arvorezinha – R$ 21,3 milhões
  9. Montenegro – R$ 21,2 milhões
  10. Santa Maria do Herval – R$ 16,1 milhões

Regras para produzir

  • O cadastro e licenciamento das florestas plantadas é competência do Estado
  • Produções de acácia e eucalipto de até 40 hectares estão isentas da licença ambiental. No chamado porte mínimo, é exigido somente a inscrição no Cadastro Florestal, sob responsabilidade da Secretaria da Agricultura (Seapi)
  • Para florestas plantadas de eucalipto e acácia maiores do que 40 hectares, é necessário obter o licenciamento da atividade na Fepam
  • A Fepam informa que o RS é o único Estado do Brasil que possui um zoneamento específico para a silvicultura. Isso significa delinear áreas permitidas para o reflorestamento levando em consideração estudos de disponibilidade hídrica
  • A Fepam alerta que explorar o reflorestamento e a extração vegetal para fins comerciais sem o licenciamento pode configurar crime ambiental
  • O governo federal sancionou, em maio de 2024, uma lei aprovada pelo Congresso para excluir a silvicultura das atividades potencialmente poluidoras. Isso simplificou o licenciamento ambiental para as florestas plantadas com fins comerciais

O nó de pinho vai acabar? Como é extraído o produto apreciado para queima na lareira

Conhecido pela resistência durante a queima e alto poder calorífico, o nó de pinhovendido no inverno gaúcho como lenha para aquecer lareiras, está em crescente escassez. Ele é um subproduto da Araucaria angustifolia, também conhecida como pinheiro brasileiro. O vegetal é nativo do Brasil, com predominância nos Estados da região sul.

Produtores e especialistas da engenharia florestal afirmam que o item de extração vegetal tende a rarear mais a cada ano. A menor oferta deve elevar o preço.

— Faz mais de 10 anos que ouço que está para terminar. De fato, cada vez tem menos. No futuro, pode acabar — afirma Valmor Griebeler, proprietário da Ki-Fogo, empresa do ramo da lenha e do carvão vegetal sediada em Brochier (RS), no Vale do Caí.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram como a extração do nó de pinho no Brasil caiu de 12,7 mil metros cúbicos em 2019 para 6,8 mil metros cúbicos em 2023 (veja os dados no gráfico mais abaixo).

— Pensando em fins energéticos (geração de energia a partir da queima), a oferta é insignificante. Tanto que já se observa o uso do nó de pinho no turismo como artesanato, em um resgate cultural como subproduto da típica araucária. Não se tem projeção do quanto existe em estoque, mas é uma produção muito restrita — afirma Adelaide Juvena Kegler Ramos, engenheira florestal da Emater-RS.

A queda na oferta do nó de pinho está relacionada à sua origem. Ele fica no tronco das araucárias e faz a junção com os galhos. A árvore também é responsável pela produção do pinhão.

O subproduto vegetal que chega ao apreciador das lareiras costuma ser encontrado no solo, abaixo da superfície. É um resquício das ponteiras das árvores que foram deixadas no campo durante décadas. As ponteiras são as copas do pinheiro brasileiro, onde havia a concentração de galhos unidos ao trecho final do tronco. Enquanto a madeira se degradou no processo histórico, o nó resistiu e permaneceu no ambiente natural.

— A grande maioria do nó de pinho encontrado hoje é decorrente da exploração de madeira que se iniciou durante os processos de colonização e chegada das serrarias do Rio Grande do Sul, no século 19. A intensa exploração madeireira seguiu até aproximadamente as décadas de 60 e 70, período em que se permitia a exploração comercial da araucária — diz Adelaide.

As toras da araucária, de maior valor, eram destinadas para o beneficiamento de tábuas, casas e benfeitorias. A ponteira, onde estavam os nós de pinho, ficava no campo. Uma parcela de árvores, parte delas centenária, também caía naturalmente, pela idade ou raios.

— O nó não se decompôs na natureza, ao contrário da madeira, porque ele é impregnado de resina, tem maior durabilidade e é mais denso do que a tora. A única forma de desintegração vai ocorrer pelo fogo — destaca Adelaide.

Mais difícil de encontrar

Com o passar de mais de um século, os nós de pinho foram para debaixo da superfície devido aos processos de decomposição do resíduo da madeira explorada e de preparo da terra para as plantações que vieram depois. 

— A profundidade em que ele se encontra é muito variável. Uns mais na superfície, outros menos. O mesmo revolvimento da terra que contribuiu para o resíduo parar no subsolo é, nos dias de hoje, o que faz reaparecer — detalha a engenheira florestal da Emater-RS.

Com 15 anos de experiência na distribuição de nó de pinho a partir dos Campos de Cima da Serra, José Américo conhece detalhes da extração e afirma que o subproduto não costuma mais ser encontrado em áreas planas. O que restou está em encostas de rios, geralmente de difícil acesso e sem estradas próximas.

Ele menciona que a remoção mais eficiente, hoje, é feita de dois modos. Um deles é procurar pelos “leitos”, marcas do choque da araucária contra o solo ao tombar. Nesses locais, o que restou de madeira já “apodreceu”. Os nós que ficavam na face da árvore que colidiu com a superfície podem ser encontrados até 30 centímetros abaixo da terra, afirma Américo. A remoção é feita a golpes de bico de foice. Os subprodutos que estavam na parte do tronco em que não houve impacto direto ainda são localizados soltos, sobre o chão. O segundo método tem origem na pecuária.

— No inverno rigoroso, com chuva, o gado busca refúgio no mato para comer pinhão e folhas de árvores. Onde tiver barro, ele pisoteia e enterra o nó — conta Américo.

O distribuidor relata que o serviço é bruto: inclui via crucis com cargas pesadas nas costas ou no lombo do cavalo desde as encostas. A tração humana e animal é necessária até onde um trator tenha condição de chegar para continuar o transporte. Se o trabalhador for resistente, e o clima não for chuvoso, afirma Américo, é possível alcançar remuneração entre R$ 6 mil e R$ 7 mil ao mês.

— Se não tiver uma renda boa, ninguém mais quer a atividade. Hoje o que se tem de nó de pinho é um mínimo, só em lugar ruim de chegar, no meio do mato mesmo. A tendência é ser extinto — avalia o produtor.

A Secretaria Estadual da Agricultura (Seapi) confirma a hipótese da escassez, mas não crê em desaparecimento da oferta por se tratar de “pequeno nicho de mercado”. 

No Rio Grande do Sul, o nó de pinho é historicamente concentrado em São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Jaquirana, Bom Jesus e São José dos Ausentes, entre outros.

A araucária é protegida por lei e está na lista de espécies em extinção. É vedada a exploração comercial de remanescentes de floresta nativa, alerta Adelaide.

Situação diferente ocorre com a floresta plantada de araucária: neste caso, trata-se de uma mata que será iniciada em área específica com o propósito comercial, na lógica do reflorestamento, o que é permitido, desde que haja autorização dos órgãos ambientais.

A floresta plantada, dizem especialistas, teria potencial limitado para gerar oferta de nó de pinho porque os plantios costumam ser explorados em idades baixas. O subproduto é mais vigoroso e denso conforme o desenvolvimento do vegetal ao longo de várias décadas.

A oferta decrescente pode ser sentida nos preços, indica Griebeler, proprietário da Ki-Fogo. Ele vende para os mercados um saco de 10 quilos de acácia-negra por R$ 18. A mesma quantidade de nó de pinho está saindo por R$ 36, o dobro. O empresário afirma que haverá aumento de preço para o inverno do próximo ano.

Griebeler alerta que o aquecimento doméstico com o nó de pinho é recomendado para lareiras. O uso em fogões a lenha pode danificar e até rachar a chapa devido ao alto poder calorífico.

O transporte e a comercialização do item, matéria-prima florestal da categoria lenha, são permitidas. Os produtores precisam se habilitar junto aos órgãos ambientais municipais e obter a autorização especial, expedida via Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor). A Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) informa que, após a regularização do produtor, uma carga só pode ser transportada mediante emissão do Documento de Origem Florestal (DOF).

Fonte: GZH

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