Ageflor – Associação Gaúcha de Empresas Florestais

Silvicultura ganha espaço e amplia renda na agricultura familiar gaúcha

Silvicultura ganha espaço e amplia renda na agricultura familiar gaúcha

O Jornal do Comércio destacou em sua capa da edição de 22/06/2026 e em reportagem especial do caderno Empresas & Negócios a silvicultura no contexto da agricultura familiar. A Ageflor auxiliou com a reportagem com entrevista do vice-presidente adjunto Ruter Disarz, com dados setoriais e indicando fontes e assessorias das empresas associadas para a repórter. Todas as associadas da Ageflor com trabalho de fomento florestal para pequena agricultura foram indicados para a produção da reportagem. Confira:

silvicultura entrou na vida do agricultor Charles Pigatto, de Ivorá, na região central do Rio Grande do Sul, como alternativa para driblar problemas causados pelas mudanças climáticas que, há alguns anos, vêm trazendo prejuízos e perdas nas lavouras dos produtores gaúchos.

A decisão por adotar o plantio de eucalipto como forma de diversificar a produção veio após uma quebra expressiva na lavoura de soja que Pigatto cultiva, seguindo a tradição da família de imigrantes italianos que começou com o avô dele. “Faz 20 anos que planto eucalipto, pois é uma cultura que nos dá uma certa tranquilidade, seja nos anos de chuva em excesso ou de seca, ele continua produzindo. Um pouco da madeira eu uso na propriedade e outro tanto vendo”, conta o agricultor.

As florestas plantadas viraram alternativa de renda para muitas famílias de produtores gaúchos, tanto para superar crises e incrementar a renda quanto como alternativa de diversificação na propriedade. O extensionista rural e coordenador estadual das áreas de silvicultura e sistemas agroflorestais da Emater/RS-Ascar, Antônio Carlos Leite de Borba, afirma que a silvicultura comercial apresenta boas perspectivas de crescimento nesse nicho. Segundo ele, o avanço é impulsionado pelo aumento da demanda por madeira, tanto para uso interno nas propriedades quanto para os mercados regionais de energia, construção e secagem.

Borba destaca ainda que a baixa expansão dos plantios nos últimos anos criou uma lacuna de oferta, estimulando novos investimentos. Outro fator que favorece a atividade é a simplificação da legislação ambiental, que reduziu a burocracia, especialmente para pequenos e médios produtores. “Além disso, a atividade vem sendo cada vez mais reconhecida como uma estratégia de diversificação de renda, permitindo a entrada de recursos em períodos distintos das atividades tradicionais, como grãos e pecuária”, diz.

Dados da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), no Rio Grande do Sul, apontam que, em 2023, o setor movimentou R$ 3,8 bilhões no Estado, com uma área plantada de 974 mil hectares de cultivos florestais, representando 9,5% da área plantada nacional. Os três gêneros florestais mais cultivados em escala comercial em solo gaúcho são eucalipto, pinus e acácia-negra, para suprir diferentes setores da cadeia produtiva florestal. Desse montante, a área de eucalipto representa 63,3% dos plantios no Estado, totalizando cerca de 617 mil hectares.

O pinus representa 29,5%, com 287 mil hectares, enquanto a acácia-negra ocupa 6,9% da área de florestas plantadas, o que representa 67 mil hectares. A silvicultura é praticada nos 497 municípios gaúchos, e 100% deles contam com plantios de eucalipto, 369 com pinus e 120 com acácia-negra.

Alguns municípios se destacam pela quantidade de área plantada, como Encruzilhada do Sul, São Francisco de Paula e Piratini. Em 2023, as atividades de produção florestal (plantadas e nativas), indústria de celulose, papel e produtos de papel, móveis e produtos de madeira somaram 64.222 empregos, entre agropecuários (6.224) e industriais (57.998).

Silvicultura se consolida como alternativa de renda e sustentabilidade

A participação da agricultura familiar no contexto da indústria de base florestal tende a aumentar nos próximos anos, graças aos programas de fomento desenvolvidos pelas indústrias de base florestal associadas da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), que promovem e subsidiam a atividade nas pequenas propriedades.

“Os programas de fomento oferecem diferentes modelos de remuneração, com contratos indexados ao preço do quilo do boi, aos grãos ou a valores monetários fixos. Isso garante uma receita mínima ao produtor e mais segurança no desenvolvimento da atividade”, afirma o vice-presidente adjunto da Ageflor, Ruter Disarz.

Para o executivo, a pulverização da participação das pequenas e médias propriedades na atividade é fundamental para que haja condições de abastecer as indústrias e, junto com isso, gerar renda, trabalho, conservação ambiental e maior segurança em tempos de mudanças climáticas.

“Num cenário de instabilidade climática, a silvicultura traz uma maior salvaguarda para o produtor, pois se trata de uma atividade perene, de baixo risco para os principais intempéries, onde o produtor pode ter uma garantia de produção, de produtividade e hoje uma garantia de comercialização dos seus produtos, visando que é uma rentabilidade com a preservação do meio ambiente e um desenvolvimento local das atividades com geração de emprego e desenvolvimento regional”, avalia Disarz.

Embora algumas vezes associada a impactos ambientais, a silvicultura pode desempenhar papel importante na recuperação de áreas degradadas e na proteção do solo quando desenvolvida de forma sustentável. Os impactos negativos estão associados, em geral, a práticas inadequadas de cultivo.

Em termos médios, para cada um hectare plantado há outro hectare conservado, vinculado a áreas de preservação permanente, reserva legal, remanescente de vegetação nativa, tanto florestal como campestres. “O mercado do carbono é um potencial e o Brasil vem caminhando nesse sentido, visando normatizá-lo. Entendemos que nos próximos anos será possível mensurar rendas extras para a atividade”.

Os agricultores familiares podem se inserir na cadeia de base florestal de diversas maneiras, tanto atuando de forma independente, como para a indústria de energia, na geração de biomassa, de cavaco, de lenha, na indústria de processamento de madeira sólida, para a indústria de serrarias, madeira serrada para móveis, para construção civil, pode também trabalhar nas indústrias de painéis de madeira e para indústria da celulose.

Para Disarz, a atividade oferece versatilidade comercial e ganhos de competitividade. “O produtor pode atender diferentes mercados e, quando está próximo de uma indústria de base florestal, obtém vantagem logística e econômica”, afirma. O mercado de carbono também desperta o interesse de produtores e indústrias florestais. Em muitas propriedades, a área preservada supera a destinada à silvicultura, o que pode abrir espaço para futuros ganhos relacionados à conservação ambiental.

O executivo acrescenta que um dos principais entraves da participação da agricultura familiar na silvicultura é o acesso a linhas de crédito específicos para essa atividade de longo prazo, que podem levar de sete a 20 anos para ter resultado. Isso requer um grande fluxo de caixa nos anos iniciais e que muitas vezes, para a agricultura familiar, é um grande complicador.

Não há linhas de crédito com juros acessíveis ou linhas subsidiadas pelo governo para que os produtores da agricultura familiar possam fazer esse investimento, para que possam fazer um aporte inicial sem comprometer outras atividades”, afirma. É justamente aí que os programas de fomento vêm auxiliar, mas, segundo Disarz, políticas públicas seriam fundamentais, principalmente de acesso a crédito subsidiado para atividade florestal na agricultura familiar.

Silvicultura permite gerar renda onde a agricultura intensiva apresenta limitações

A silvicultura passou a ser vista por muitos agricultores familiares como uma alternativa capaz de complementar a renda tradicional obtida com grãos e pecuária, pois, ao contrário das culturas anuais, a produção florestal permite receitas em períodos distintos do ano e ao longo de diferentes fases do ciclo produtivo, contribuindo para um fluxo de caixa mais equilibrado nas propriedades. Outro aspecto que favorece o interesse dos produtores é o aproveitamento de áreas antes consideradas improdutivas.

“O plantio florestal permite gerar renda em locais onde a agricultura intensiva apresenta limitações, sem competir diretamente com outras atividades da propriedade”, afirma o extensionista rural, coordenador estadual das áreas de silvicultura e sistemas agroflorestais da Emater/RS-Ascar, Antônio Carlos Leite de Borba.

A atividade vem se consolidando impulsionada pelo aumento da demanda por madeira, pela simplificação da legislação ambiental e pela ampliação de programas de incentivo e assistência técnica.

Em função disso, a atividade apresenta perspectiva de crescimento em diversas regiões do Estado com expansão gradual do cultivo de florestas comerciais em pequenas propriedades rurais, especialmente em regiões como Serra do Botucaraí, Centro-Serra, Médio Uruguai e região Sul.

“Nessas áreas, fatores como tradição florestalpresença de cadeias produtivas ligadas à madeira e disponibilidade de áreas degradadas ou de menor aptidão agrícola favorecem o avanço da atividade”, explica.

A atividade também apresenta retorno financeiro considerado compatível com a realidade da agricultura familiar, pois, em plantios destinados à produção de lenha e madeira de menor diâmetro, o produtor pode começar a obter receita em três ou quatro anos. Já cultivos voltados para madeira de maior valor agregado, como toras, possuem ciclos mais longos, entre 16 e 20 anos.

De acordo com o extensionista da Emater, o retorno depende diretamente do manejo adotado, da escolha correta das espécies e da utilização de mudas de qualidade. Entre as espécies mais utilizadas no Estado estão eucaliptopinusacácia-negra e também a erva-mate.

Além disso, a assistência técnica tem papel central no avanço da silvicultura entre agricultores familiares por meio do trabalho da Emater, que atua desde o planejamento do uso da terra até o manejo e comercialização da produção.

Muitos produtores enxergam a floresta como uma reserva patrimonial da família, um investimento de médio e longo prazo que pode ser utilizado em momentos de necessidade, pois o setor vem crescendo no País.

“A produção florestal brasileira bateu recordes recentes de valor econômico, puxada principalmente pela silvicultura e pela cadeia da celulose”, afirma o secretário executivo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag/RS), Kaliton Prestes.

Investimentos iniciais relativamente elevados estão entre os gargalos

Apesar das perspectivas positivas, o setor ainda enfrenta desafios importantes. Um dos principais gargalos apontados é a necessidade de investimentos iniciais relativamente elevados para uma atividade de retorno de médio e longo prazo.

Embora existam linhas de financiamento, especialmente por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), produtores ainda enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso ao crédito, à oscilação do preço da madeira e aos custos de colheita e transporte. A logística é considerada um dos principais entraves para pequenos produtores, especialmente em regiões onde há pouca estrutura industrial ou grande distância dos centros consumidores.

“O transporte da madeira e as operações de colheita exigem equipamentos especializados e podem comprometer parte da rentabilidade”, explica o coordenador estadual das áreas de silvicultura e sistemas agroflorestais da Emater/RS-Ascar, Antônio Carlos Leite de Borba. Outro desafio está na escala de produção, pois pequenos volumes individuais dificultam a negociação direta com grandes compradores, o que reforça a necessidade de fortalecimento de cooperativas, associações e arranjos produtivos locais.

“Hoje, a cadeia produtiva da madeira no Estado funciona de forma descentralizada. Parte significativa da produção familiar é absorvida localmente, seja por propriedades vizinhas, pequenas serrarias, agroindústrias ou pela demanda ligada à armazenagem de grãos e à pecuária”. Em volumes maiores, a madeira segue para polos regionais e indústrias ligadas à produção de energia, serrarias e celulose. Ainda assim, o setor avalia que a cadeia precisa avançar em organização, infraestrutura e integração dos pequenos produtores.

A expansão da silvicultura também vem acompanhada de debates sobre sustentabilidade e conservação ambiental. Segundo a Emater, a atividade pode ser conciliada com a preservação dos recursos naturais desde que o plantio siga critérios técnicos e respeite a legislação ambiental.

As orientações incluem implantação das florestas fora de Áreas de Preservação Permanente (APPs), manutenção da vegetação nativa em nascentes e margens de rios, planejamento adequado do uso da terra e adoção de práticas de conservação do solo e da água. Entre as medidas recomendadas estão o plantio em áreas degradadas, manutenção da cobertura vegetal, redução da compactação do solo e planejamento das estradas internas e operações mecanizadas.

A instituição também destaca que a silvicultura pode contribuir para proteção ambiental ao aumentar a infiltração e armazenamento de água no solo, reduzir erosão e auxiliar na mitigação de eventos climáticos extremos. “Além das espécies exóticas de rápido crescimento, como eucalipto e pinus, cresce o incentivo ao plantio de espécies nativas, especialmente em projetos de recuperação ambiental, sistemas agroflorestais e silvipastoris”, completa Borba.

Segundo o extensionista rural Sérgio Morgensten, do Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar de Novo Barreiro, no Norte do Estado, o sistema de integração florestas-pecuária por meio de florestas comerciais também contribui para o bem-estar animal. “É uma alternativa para o produtor trabalhar com sombreamento para o gado de leite e de corte. Além disso, representa uma importante fonte de geração de renda”, explica. Morgensten destaca que o pinus, por exemplo, possui múltiplas finalidades, podendo ser utilizado na produção de móveis, pallets, caixas, palanques e até como fonte de energia e combustível.

Florestas têm papel estratégico para geração de renda e sustentabilidade

Não são apenas os 12,1 milhões de hectares de vegetação nativa do Estado que têm papel estratégico para o meio ambiente e para a sustentabilidade da agropecuária no Rio Grande do Sul. As florestas comerciais também entram nesse escopo e contribuem para a conservação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos e armazenamento de carbono, além de ajudarem a reduzir impactos de eventos climáticos extremos.

“As florestas plantadas também ganham importância no enfrentamento das mudanças climáticas, especialmente em sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta, capazes de neutralizar emissões da pecuária e ampliar a renda no campo”, afirma o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Hélio Tonini.

Empresas & Negócios – De que forma as florestas plantadas contribuem para a mitigação das mudanças climáticas e para o sequestro de carbono?

Hélio Tonini – As florestas desempenham um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas especialmente no que diz respeito à remoção de gases de efeito estufa (GEE) da atmosfera ao sequestrar e armazenar carbono. Neste aspecto as florestas plantadas devido ao rápido crescimento e alta produtividade são muito eficientes. Estudos realizados por diferentes unidades da Embrapa têm demostrado que a inserção de árvores em pastagens em sistemas silvipastoris tem grande potencial para neutralizar as emissões do rebanho bovino, o que é muito importante para o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de proteína animal, com um rebanho estimado em 238 milhões de cabeças. Portanto, aumentar a área com plantios florestais, especialmente em sistemas silvipastoris, tem grande potencial para mitigar emissões de gases de efeito estufa e abrir novos mercados para o País em um mundo com consumidores cada vez mais exigentes em relação a sustentabilidade ambiental e ao bem-estar animal.

E&N – O senhor acredita que as florestas podem se tornar uma das principais alternativas de diversificação de renda para a agricultura familiar?

Tonini – Sim, é uma tendência e a maior oportunidade está nos sistemas integrados, já que as árvores podem ser incorporadas na pecuária de corte, de leite e nas lavouras, ou seja, a floresta deixa de competir e passa a complementar a produção agropecuária. Por exemplo, a introdução de árvores em campos nativos do Pampa pode ser feita sem a sua substituição, desde que as árvores estejam em arranjo e espaçamento adequados. Pode-se manter a pecuária com boa produtividade, durante todo o ciclo do componente florestal, agregando serviços ambientais propiciados pelas árvores como o bem-estar animal. Isso é uma vantagem que ainda não foi percebida pelos produtores e nem pelo setor florestal.

E&N – Qual é o perfil dessas propriedades familiares que trabalham com silvicultura no Estado?

Tonini – No Rio Grande do Sul, a maior parte das florestas plantadas se distribui entre as empresas florestais, produtores rurais fomentados por algum segmento industrial e propriedades com integração agropecuária. As pequenas propriedades familiares localizadas na Serra, Centro-Norte, Vale do Taquari e Alto Uruguai se caracterizam por plantios em pequena escala de eucalipto, erva-mate e pinus (predominante na Serra e Nordeste). Nas médias propriedades rurais, predominantes na Campanha, na Depressão Central e na Metade Sul, são mais comuns os plantios de eucalipto e acácia, frequentemente vinculados a programas de fomento da indústria. Já as grandes propriedades, também concentradas nessas regiões, costumam manter extensas áreas contínuas destinadas à produção de celulose, carvão vegetal e madeira sólida.

E&N – Qual é a participação da agricultura familiar na cadeia florestal gaúcha atualmente?

Tonini – A agricultura familiar possui uma forte participação no cultivo de acácia e erva-mate e no fornecimento de lenha e madeira para uso regional em pequenas serrarias. Cultivos tradicionalmente associados à agricultura familiar como o do tabaco plantados por aproximadamente 68 mil famílias utilizam pequenas florestas de eucalipto como fonte energética estratégica para a secagem. A erva-mate é cultivada por cerca de 14 mil produtores familiares e a acácia-negra por cerca de 40 mil famílias.

E&N – Quais espécies florestais são mais utilizadas por pequenos produtores no Sul do Brasil e por quê?

Tonini – No Rio grande do Sul, as principais são o eucalipto, várias espécies e materiais genéticos, com 617 mil hectares, o pinus, predominantemente pinus taeda e pinus elliottii, com 287 mil hectares, a acácia-negra com 67 mil hectares, e a erva-mate, com 34 mil hectares.

E&N – A integração entre agricultura, pecuária e floresta tem avançado no País? Quais benefícios esse modelo oferece ao produtor?

Tonini – Estima-se que estão em entre 17 e 18 milhões de hectares, o que representa um aumento de oito vezes em área plantada, nos últimos 15 anos. No Rio Grande do Sul, são dois milhões de hectares. A predominância é de sistemas de integração lavoura-pecuária (90%), porém, os sistemas com árvores vêm crescendo rapidamente no Brasil com uma expansão acumulada de 80% nos últimos dois anos, principalmente na região Centro-Oeste. Os benefícios para o produtor são vários, mas podemos enfatizar a diversificação de renda, redução de risco econômico, maior resiliência climática e melhoria do bem-estar e conforto térmico animal na presença de árvores nos sistemas.

Fonte: Jornal do Comércio