Ageflor – Associação Gaúcha de Empresas Florestais

Artigo – Silvicultura brasileira: produzir já não basta

Área plantada da silvicultura somou 9,5 milhões de hectares, dos quais 77,3% são de eucalipto, e valor de produção atingiu R$ 27,4 bilhões - Foto: Fernando Dias/Ascom-Sepadr

Artigo – Silvicultura brasileira: produzir já não basta

Por Cícero Ramos, engenheiro florestal, vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (Amef)

A silvicultura brasileira está entre as cadeias produtivas mais eficientes do País – e também entre as mais expostas ao ambiente político. O cultivo planejado de florestas para produção de madeira, energia, celulose e papel consolidou-se como uma atividade altamente competitiva. O Brasil reúne cerca de 10 milhões de hectares de florestas plantadas, com predominância de eucalipto (78%) e pinus (19%), base que sustenta sua posição de destaque global na produção e exportação de celulose. Sob a perspectiva produtiva, trata-se de um caso de sucesso.

Esse desempenho convive com fragilidade estratégica: a dificuldade de converter capacidade técnica em compreensão pública. Sem legitimidade social, até a excelência técnica perde força para influenciar decisões públicas.

Não se trata de ausência de conhecimento. A base técnica resulta de décadas de desenvolvimento da engenharia florestal – envolvendo melhoramento genético, manejo, silvicultura e tecnologia – que sustentaram ganhos consistentes de produtividade e adaptação às condições tropicais, colocando o Brasil entre as referências globais. O desafio é fazer esse conhecimento alcançar o debate público.

Daí emerge um descompasso: um segmento altamente sofisticado passa a ser interpretado por simplificações como “deserto verde”, “eucaliptozal” e “pinuzal”. Essas leituras não refletem a complexidade do sistema produtivo, mas ganham espaço no debate público e passam a influenciar decisões regulatórias. Não falta conhecimento – falta capacidade de disputar narrativas fora do circuito técnico.

Esse padrão não é exclusivo do Brasil. No Chile, a expansão florestal gerou conflitos que exigiram respostas institucionais. Na Finlândia e na Suécia, políticas florestais passaram a integrar comunicação pública, transparência e participação social como componentes permanentes da governança do setor. Nesses casos, a eficiência produtiva foi acompanhada da construção de legitimidade pública, fortalecendo cadeias industriais e favorecendo investimentos de longo prazo.

Os efeitos desse descompasso já se manifestam. Debates sobre espécies exóticas invasoras e interpretações de instrumentos regulatórios mostram como leituras imprecisas podem influenciar a avaliação de risco, a segurança jurídica e as condições de investimento.

Não se trata apenas de narrativa – trata-se de ambiente de negócios. É preciso reconhecer, no entanto, que nem toda crítica decorre de desinformação. Em regiões como o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia, a expansão florestal esteve associada, em determinados períodos, a conflitos fundiários, impactos sobre a biodiversidade e homogeneização da paisagem. São contextos localizados, mas relevantes para compreender a percepção pública. Ignorá-los limita o aprendizado institucional; negá-los reforça respostas defensivas. Reconhecer esses limites fortalece a credibilidade do setor e amplia sua legitimidade perante a sociedade.

O debate sobre eucalipto e pinus ilustra essa complexidade. A literatura técnica demonstra que se trata de culturas dependentes de manejo adequado, o que não sustenta generalizações como “invasão biológica” em escala nacional. Por outro lado, em regiões com elevada concentração de plantios, a visão predominante de paisagens homogêneas é concreta e exige respostas baseadas em planejamento territorial, transparência e diálogo.

O ponto central não é a existência de críticas, mas a forma como elas se consolidam – e a dificuldade de enfrentá-las com linguagem acessível, presença pública e consistência argumentativa. A base técnica produz conhecimento de alto nível. O desafio é transformá-lo em comunicação capaz de dialogar com a sociedade, a imprensa e os formuladores de políticas públicas.

A experiência mostra que eficiência técnica não garante, por si só, estabilidade regulatória. Quando o tema não ocupa o debate, decisões passam a ser orientadas por leituras correntes – e não por evidências técnicas. Esse deslocamento reduz a capacidade de hierarquizar riscos, compromete políticas de longo prazo e amplia a incerteza institucional, com impacto direto na previsibilidade dos investimentos. Falar para além do setor deixa de ser apenas estratégia de comunicação e passa a ser condição de competitividade.

A silvicultura brasileira avançou de forma consistente na dimensão produtiva. O próximo passo é ocupar o espaço público com a mesma competência demonstrada no campo técnico, num ambiente institucional cada vez mais sensível às pressões e às percepções da sociedade.

O desafio agora é conquistar legitimidade pública. Sem isso, a eficiência técnica continuará condicionada ao ambiente político, e o País perderá a oportunidade de consolidar uma de suas vocações mais competitivas. A ausência de uma voz qualificada no espaço público tornou-se um risco estratégico, com efeitos econômicos concretos e duradouros para toda a cadeia florestal.

Afinal, num ambiente no qual percepções também moldam políticas públicas, competitividade também depende de confiança.

Fonte: Estadão