Uma nova versão da ferramenta BRLUC (Brazilian Land Use Change) foi lançada pela Embrapa e já está disponível para acesso gratuito no site, que foi amplamente remodelado. A ferramenta disponibiliza dados de estoques de carbono e emissões de dióxido de carbono (CO2) associadas à mudança de uso da terra na agropecuária. Essas informações são usadas em calculadoras e modelos de cálculos de emissões, assim como em políticas públicas de baixo carbono. Os detalhes metodológicos e os novos dados foram publicados na revista científica Journal of Cleaner Production.
A versão 2.1. traz, como principal inovação, a disponibilização de dados de estoque de carbono médios e suas respectivas incertezas para 44 usos da terra, em cada município do Brasil. O método também disponibiliza o balanço de CO2 e suas incertezas para 64 culturas agrícolas, pastagens e florestas plantadas, considerando as mudanças de uso da terra no período de 2000 a 2019, para os 5.569 municípios brasileiros.
“Foi gerado um conjunto de mais de um milhão de valores, que irão suprir uma demanda por dados consistentes e seguros para serem usados em métodos e estudos de pegada de carbono. Ao quantificar as incertezas, tornamos os erros das estimativas acessíveis, o que ajuda a evitar conclusões simplificadas ou imprecisas sobre os impactos”, explica Aline Batista, doutora em Solos e bolsista de inovação da Embrapa Meio Ambiente, primeira autora do artigo.
Segundo ela, a mudança de uso da terra pode representar uma parcela significativa da pegada de carbono de produtos agropecuários, e sua contabilização é exigida pelos principais protocolos internacionais, como as normas ISO e o GHG Protocol. No entanto, enfatiza ela, “a dificuldade em obter dados locais é um grande desafio”.
Fonte de referência
“O levantamento de dados em nível de talhão ou de fazenda, que seria o ideal, muitas vezes é inviável por falta de informações ou pelos altos custos e tempo envolvidos”, esclarece Renan Novaes, analista da Embrapa Meio Ambiente e um dos coordenadores do estudo. Ele acrescenta que a falta de dados é frequentemente citada como o principal obstáculo para a inclusão da mudança de uso da terra nos inventários de carbono. Nesse cenário, o BRLUC se consolidou como a principal fonte de referência para estimar essas emissões no Brasil. “A ferramenta serve de suporte a diversas iniciativas e produtos relevantes para a mitigação das emissões de CO2 pelo setor agropecuário, tanto na esfera pública quanto na privada”, explica.
A nova versão, no entanto, evidencia um ponto de atenção. “Os resultados mostram que os atuais níveis de incerteza, principalmente dos dados de referência do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), muitas vezes dificultam a diferenciação estatística entre diferentes práticas de manejo ou até mesmo entre usos do solo distintos”, pontua Luiz Gomes, doutorando em Estatística e bolsista de inovação da Embrapa, e também coautor do artigo. Ele enfatiza que o avanço para estimativas mais precisas depende do desenvolvimento de dados de maior detalhamento (Tier 2 e 3) para as condições brasileiras. Por exemplo, embora o estoque médio de carbono de uma lavoura anual manejada sob plantio direto seja maior do que em uma sob manejo convencional, as altas incertezas, geradas pelo uso de dados mais gerais do IPCC, impedem a diferenciação entre elas. “Os resultados mostram que, para algumas aplicações e alguns casos, é necessário o uso de dados mais precisos para conclusões robustas”, complementa Gomes.
Outra melhoria foi a incorporação de práticas de manejo específicas para cada município, utilizando dados de fontes externas como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Essa abordagem nos permitiu calcular o estoque de carbono de forma mais acurada, considerando a proporção de cada tipo de prática no município, como o tipo de colheita de cana, a espécie florestal cultivada e o tipo de manejo do solo”, salienta Novaes. A atual metodologia reduz as generalizações antes empregadas, proporcionando dados mais fiéis à realidade.
O site do BRLUC também foi aprimorado. Gerle Silva e John Oliveira, graduandos em Engenharia da Computação e também bolsistas da Embrapa Meio Ambiente, atuaram no desenvolvimento do novo site e concordam que “o layout está mais moderno e intuitivo, facilitando a visualização e tornando a busca de dados mais rápida e eficiente para o usuário”.
O trabalho é fruto de ampla colaboração entre pesquisadores, analistas e bolsistas de diversas Unidades da Embrapa (Agrobiologia, Agroindústria Tropical, Florestas e Meio Ambiente) e de instituições parceiras, como o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Os autores são: Aline Martineli Batista, Luiz Eduardo Gomes, Ricardo Almeida Pazianotto, Marília Folegatti, Renan Lage Novaes, Gislaine Mendonça, Diego Amaral, José Paulo Savioli, Danilo Garofalo e Gustavo Bayma da Embrapa Meio Ambiente; Bruno Alves da Embrapa Agrobiologia; Thayse Hernandes da Unicamp; Josileia Acordi Zanatta da Embrapa Florestas e Maria Clea Brito de Figueiredo da Embrapa Agroindústria Tropical.
Arte: Renan Novaes
Fonte: Embrapa Meio Ambiente




