Ageflor – Associação Gaúcha de Empresas Florestais

Como a fauna brasileira se adapta às florestas plantadas

O setor de árvores cultivadas no Brasil atingiu receita bruta de R$ 240 bilhões e responde por recordes de exportação em 2024. Segundo o Relatório Anual da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), com 10,5 milhões de hectares de plantios, principalmente de eucalipto e pinus, o país lidera a produção global de celulose. A imensa floresta plantada no país, no entanto, não gera apenas impacto econômico, mas afeta diretamente o meio ambiente.

O que antes era rotulado como “deserto verde” tem se revelado, sob a ótica de novas pesquisas e manejos, uma complexa e desafiadora rede de convivência, onde a fauna silvestre precisa aprender a navegar entre os talhões comerciais para garantir sua sobrevivência e o trânsito entre fragmentos de mata nativa.

O segredo dessa coexistência não reside apenas na presença das árvores, mas na forma como elas são dispostas no território. O avanço da silvicultura moderna no Brasil substituiu os antigos blocos maciços pelo chamado sistema em mosaico. Nesse modelo, as plantações de eucalipto são intercaladas com áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais, que somam hoje cerca de 6,7 milhões de hectares conservados pelas empresas do setor.

Essa configuração cria corredores ecológicos que conectam fragmentos de vegetação original. Para a fauna, o eucaliptal deixou de ser apenas uma barreira para se tornar uma área de passagem e, em alguns casos, de moradia temporária. No entanto, os especialistas alertam para a necessidade de aprimoramento no processo de conservação.

De acordo com o Relatório Anual da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) 2025, o monitoramento constante das empresas já identificou mais de 8 mil espécies de animais e plantas circulando nesses ambientes, incluindo predadores de topo que dependem de grandes áreas de vida.

“As florestas plantadas são uma realidade e, para quem trabalha com conservação ambiental é preciso encarar essa questão. Em um cenário ideal, não existiriam florestas manejadas pelo ser humano, não existiriam plantações, pecuária de larga escala, nada disso. Mas a realidade é outra e existe importância vital em cada setor. O desafio, portanto é: como conservar a biodiversidade em meio a esse cenário?”, questiona o biólogo Mauro José, especializado em conservação ambiental.

Mauro reforça que ainda existe um longo caminho para o cenário ideal. “Essas florestas podem aumentar a prevalência de espécies generalistas e elas jamais substituirão florestas nativas. Ainda existe um longo caminho de estudos e testes para melhorar a coexistência da fauna e flora”.

A adaptação da fauna

O especialista diz que não dá para dizer que a natureza aceitou a nova realidade, mas sim que ela precisou se adaptar a ela. Estudos da Embrapa Florestas e pesquisas publicadas pela Sociedade de Ecologia do Brasil (SEB) demonstram que a biodiversidade aumenta quando o manejo permite o desenvolvimento do sub-bosque — a vegetação nativa que cresce sob a copa dos eucaliptos.

Essa “camada de baixo” oferece abrigo a pequenos mamíferos e insetos, que por sua vez atraem aves e predadores maiores. Um levantamento da Casa da Floresta no Mato Grosso do Sul revelou que a presença de vegetação nativa rasteira dentro dos plantios é o fator determinante para que espécies como tamanduás-bandeira e lobos-guarás utilizem o eucaliptal como refúgio térmico e rota de caça.

“A silvicultura brasileira tem uma posição única porque fomos forçados a aprender a produzir com responsabilidade”, analisa Augusto Massaro, diretor administrativo da Una Florestal, empresa de Araraquara (SP) especializada em gestão e tecnologia florestal.

“O manejo hoje é muito mais sensível ao que acontece no chão da floresta. Não se trata apenas de colher madeira, mas de entender como esse ciclo afeta o bioma ao redor.”

A adaptação das árvores às mudanças climáticas

A adaptação mencionada não é exclusividade dos bichos; a própria árvore precisou mudar. Com o agravamento da crise climática, o setor de silvicultura investe bilhões em pesquisa e desenvolvimento para criar clones mais resilientes.

O desafio atual não é apenas crescer rápido, mas suportar períodos prolongados de seca e ataques de pragas que não existiam décadas atrás.

“O grande desafio hoje é a adaptação climática. Atender à demanda do mercado é uma questão de escala, mas adaptar materiais genéticos às novas condições de chuva e temperatura é o que garante a sustentabilidade no longo prazo”, explica Massaro. Para ele, o viveiro moderno tornou-se um centro de inteligência.

“Trabalhamos para desenvolver clones que sejam eficientes no uso da água e resistentes. A sustentabilidade da floresta começa antes mesmo do plantio, na escolha do material que melhor se integra àquele ecossistema específico.”

O impacto ambiental em perspectiva

É inegável que a substituição de campos nativos por monoculturas altera a dinâmica original do solo e da água. Contudo, pesquisadores da Embrapa também argumentam que o impacto deve ser analisado de forma comparativa: as florestas plantadas retiram a pressão sobre as matas nativas, que deixam de ser a fonte primária de madeira e carvão vegetal.

“Do ponto de vista da sustentabilidade, é melhor termos plantações que obedeçam às regras de conservação e que gerem impactos controlados ou ‘previstos’, do que arriscarmos. O desmatamento nativo ainda é um problema grave no Brasil, pois ele ainda ‘compensa’ para quem age fora da lei. Se o investimento em florestas plantadas com responsabilidade fosse mais amplo, talvez a atividade ilegal em áreas de preservação diminuísse”, reforça o biólogo Mauro José.

O biólogo admite que é preciso intensificar os estudos e pesquisas para garantir a sobrevivência da fauna e flora nativas brasileiras. “Para isso, é necessário não pensar apenas nos ganhos materiais, mas também em como parte de todo esse dinheiro pode ser utilizada no incentivo de novas pesquisas e ações a fim de um desenvolvimento biosustentável”.

Segundo o Ibá, estima-se que as áreas cultivadas e conservadas pelas empresas do ramo estoquem cerca de 4,5 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, um serviço ambiental crucial para as metas brasileiras de descarbonização.

O desafio para os próximos anos será manter a produção de celulose, que já ultrapassa 25 milhões de toneladas anuais — sem perder de vista o monitoramento fino e o icnentivo ao crescimento da fauna e da biodiversidade nas florestas e em áreas de preservação.

Fonte: G1 Campinas e Região EPTV – Terra da Gente