Nova sobretaxa dos EUA impõe desafio ao agronegócio gaúcho
Uma decisão vinda dos Estados Unidos traz novos desafios para a balança comercial gaúcha. A ação final do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), publicada em 15 de julho de 2026, estabeleceu a aplicação de uma sobretaxa adicional de 25% sobre diversas importações brasileiras. A medida, fundamentada na Section 301 do Trade Act de 1974, entra em vigor no dia 22 de julho e afeta produtos que não foram incluídos na lista de exceções do governo americano.
Uma Nota Técnica da Assessoria Econômica da Farsul revela um cenário de maior exposição para o Rio Grande do Sul na comparação com o cenário nacional. Enquanto a medida atinge 38% do valor total das exportações brasileiras aos EUA – o equivalente a US$ 14,33 bilhões -, no Rio Grande do Sul, esse índice chega a 79%, somando US$ 1,30 bilhão.
No agronegócio, a disparidade se mantém. A parcela da pauta agropecuária brasileira impactada é de 32,7%, enquanto no estado gaúcho a exposição alcança 70,4%. Essa concentração elevada decorre da composição específica das exportações do RS, fortemente dependentes de produtos agora submetidos à sobretaxa.
Fumo, madeira e calçados sob atenção
O impacto tarifário potencial (calculado com base nos valores exportados em 2025) pode atingir US$ 325 milhões para o total das exportações gaúchas e US$ 135 milhões especificamente para o agronegócio estadual.
O ranking dos produtos mais afetados no agro gaúcho aponta para uma preocupação central: o setor do fumo. Isoladamente, o fumo não manufaturado (tipo Virgínia) lidera a lista de riscos, seguido pela madeira serrada (Pinus), calçados de couro, fumo Burley e sebo bovino. Para se ter ideia da concentração, os cinco principais produtos afetados no agro gaúcho respondem por 64% de toda a exposição do setor no estado.
Alívio parcial nas exceções
A lista de exceções publicada pelo USTR, ampliada em relação à versão preliminar de junho, serviu como um atenuante importante. Entre os produtos que ficaram de fora da sobretaxa estão o ferro-gusa, couros bovinos, pescados, mel orgânico, café solúvel sem sabor e a sucata de ferro e aço.
A ampliação dessas exclusões na lista final reduziu a carga total sobre o Brasil, reduzindo a participação das exportações afetadas de 43,7% para 38%. No caso do Rio Grande do Sul, a parcela afetada recuou de 81,1% para 79%.
A Farsul alerta que os valores de impacto tarifário não significam, automaticamente, prejuízo direto de igual magnitude. O mercado deve reagir de formas variadas, que podem incluir desde a compressão de margens de lucro e repasse de preços até a busca por fornecedores alternativos ou desvio de comércio.
A partir da próxima semana, o monitoramento será fundamental. Produtores e exportadores deverão acompanhar de perto não apenas a implementação aduaneira da medida, mas também eventuais revisões de escopo que possam ocorrer, impactando contratos e a competitividade dos produtos gaúchos no mercado americano.
Confira a nota técncia na íntegra.
NOTA DA AMCHAM
A decisão do governo dos Estados Unidos, divulgada em 15 de julho, de aplicar sobretaxas de 25% sobre cerca de 3.000 produtos que o Brasil exporta, como conclusão da investigação da Seção 301 sobre práticas comerciais do Brasil, consiste em um resultado muito negativo para a relação bilateral.
A medida, que entra em vigor a partir de 22 de julho, coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado norte-americano, afetando duramente mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio. Esse tratamento contrasta com o crescente superávit comercial dos Estados Unidos com o Brasil — de US$ 41,8 bilhões em bens e serviços em 2025 — e com o baixo patamar das tarifas efetivamente aplicadas pelo Brasil aos produtos norte-americanos.
Ademais de prejudicar exportadores e produtores brasileiros, a aplicação de sobretaxas tende a elevar custos para as empresas e consumidores dos Estados Unidos, reduzir a competitividade de suas indústrias que utilizam insumos brasileiros, bem como ampliar a sua dependência de fornecedores asiáticos, com potencial para agravar o déficit comercial norte-americano com países daquela região. Além disso, ela limita as oportunidades de cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos em áreas estratégicas, como minerais críticos, energia, economia digital e propriedade intelectual.
O aumento das tarifas também tende a aprofundar a retração do comércio bilateral, que já registra queda de 13% no ano e levou a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro ao menor patamar histórico. Também poderá afetar negativamente os investimentos bilaterais, que mantêm estreita relação com o dinamismo das trocas entre os dois países.
“Esperamos que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantenham abertos os canais de diálogo. Embora não tenha sido possível alcançar um acordo, as negociações se intensificaram nos últimos meses e seguem sendo o caminho mais eficaz para a retirada das sobretaxas e a construção de uma agenda bilateral mais ampla. Esse esforço torna-se ainda mais urgente diante da probabilidade de novas tarifas no âmbito da investigação da Seção 301 sobre trabalho forçado, que poderão elevar as sobretaxas sobre produtos brasileiros para até 37,5%”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
A Amcham Brasil considera positiva a definição de uma lista expressiva de produtos excluídos das sobretaxas, o que contribui para mitigar parte dos seus impactos. Ao mesmo tempo, solicita a criação de um mecanismo para avaliar novas exclusões para produtos cujas sobretaxas possam gerar impactos econômicos desproporcionais para empresas e consumidores ou que não contribuam de forma efetiva para resolver as preocupações comerciais apontadas pelos Estados Unidos.
A Amcham Brasil seguirá atuando para aproximar os setores público e privado dos dois países e apoiar oportunidades de crescimento, investimentos e geração de empregos em ambas as economias.
Fonte: Assessoria de Comunicação Farsul e Amcham




