“A situação é delicada”: tarifaço ameaça produção e empregos em empresa de Rio Grande
Sena Madeiras tem toda sua produção destinada aos Estados Unidos, que não figura entre exceções à nova tarifa.
A nova sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros pode reduzir exportações, produção e investimentos de empresas que utilizam o Porto do Rio Grande para acessar o mercado norte-americano.
Entre os segmentos atingidos está o madeireiro, que não teve todos os produtos incluídos na lista de exceções divulgada pelo governo norte-americano.
A medida deve atingir aproximadamente 18% das exportações brasileiras e 48,2% dos embarques do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos, conforme cálculo da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs).
Em Rio Grande, a Sena Madeiras representa um exemplo dos efeitos esperados. A empresa produz cercas de madeira, conhecidas como fence pickets, feitas exclusivamente com pinus. Toda essa produção é destinada aos Estados Unidos e não está entre as exceções à nova tarifa.
– O nosso produto especificamente não tem, neste momento, possibilidade de redirecionamento, por ser de consumo quase exclusivo dos Estados Unidos. Dessa forma, a situação é delicada — afirma a sócia da empresa, Bárbara Moro.
Fundada em 1999, em São José do Norte, a Sena Madeiras iniciou as atividades com a compra, o beneficiamento e a comercialização de madeira no mercado nacional. Em 2002, instalou uma serraria em Rio Grande, em uma localização considerada estratégica pela empresa, entre as florestas de pinus e o porto.
As primeiras exportações ocorreram a partir dessa mudança. Há 18 anos, a empresa vende cercas de madeira aos Estados Unidos, mercado que se tornou o principal destino da produção. A companhia também fornece biomassa, por meio de cavacos de pinus, para indústrias do mercado interno e mantém atualmente mais de 100 trabalhadores.
A nova tarifa chega em um momento no qual a empresa ainda enfrenta os efeitos da redução das exportações e da queda nos preços dos produtos registrada desde o ano passado.
– Já tivemos 150 colaboradores e chegamos a cerca de 100 em setembro do ano passado. Encerramos o turno da noite de produção e não retornamos desde então. Infelizmente, tememos que mais empregos possam ser reduzidos.
A empresa ainda não definiu como irá reagir à nova taxação, mas considera provável uma nova redução da produção e das exportações, além de alterações nos preços.
– Enxergamos um impacto significativo para todo o setor, que ainda buscava se recuperar das tarifas aplicadas anteriormente. Há uma tendência de nova queda nas exportações, perda de competitividade e redução da produção e dos investimentos, além do risco de perdermos parte do mercado nos Estados Unidos – explica.
Redirecionar exportações exige tempo
O professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) Eduardo Tillmann avalia que os impactos devem ser mais intensos sobre setores que dependem do mercado norte-americano e têm menor capacidade de absorver o aumento dos custos.
No Rio Grande do Sul, essa situação alcança segmentos da indústria de transformação e parte do agronegócio exportador. Entre as cadeias mais vulneráveis estão madeira, móveis, calçados, máquinas, produtos metalmecânicos e determinados produtos agroindustriais.
– Quanto maior a dependência das exportações para os Estados Unidos, maior tende a ser a perda de competitividade diante de concorrentes de outros países.
Segundo o economista, encontrar novos destinos para a produção não é uma alternativa imediata. Muitos produtos são desenvolvidos conforme exigências técnicas, certificações e contratos específicos do mercado norte-americano.
– São relações comerciais que levam anos para serem construídas. A estratégia inicial deve ser renegociar os contratos com os importadores para dividir parte do custo adicional. A diversificação de mercados passa a ser uma necessidade, mas exige tempo e a abertura de novos canais comerciais – afirma.
Caso a tarifa permaneça por um período prolongado, as empresas poderão sofrer redução das margens de lucro, adiar investimentos e diminuir a produção. Para Tillmann, as regiões mais dependentes das vendas aos Estados Unidos também podem registrar efeitos sobre o emprego e a renda.
– Uma queda nas exportações reduz a atividade econômica dessas cadeias produtivas, podendo desacelerar as contratações e, em um cenário prolongado, provocar demissões. O maior efeito deve ocorrer sobre a atividade econômica, e não sobre a inflação – avalia.
Parte da produção que deixar de ser exportada poderá ser direcionada ao mercado brasileiro, aumentando a oferta de determinados produtos. No entanto, essa solução não atende a todos os segmentos, já que alguns bens são fabricados especificamente para consumidores estrangeiros. Esse é o caso das cercas produzidas pela Sena Madeiras.
Custo também pode chegar aos Estados Unidos
O custo da tarifa não deve ser suportado exclusivamente pelas empresas brasileiras. Segundo Tillmann, a tendência é que seja dividido entre exportadores, importadores e consumidores.
– Os exportadores brasileiros tendem a reduzir parte das margens para preservar o mercado, enquanto os importadores norte-americanos absorvem outra parcela. Dependendo do produto e da existência de fornecedores alternativos, uma parte acaba sendo repassada ao consumidor final nos Estados Unidos – detalha.
A taxação também pode encarecer insumos e bens intermediários utilizados pela indústria norte-americana. Quando não há fornecedores capazes de substituir rapidamente os produtos importados do Brasil, empresas americanas podem enfrentar custos maiores de produção.
– Embora o objetivo seja proteger determinados setores da economia norte-americana, a medida também gera custos para empresas e consumidores do próprio país. O aumento dos custos reduz a competitividade da indústria e pode pressionar os preços ao consumidor – conclui o economista.
Fonte: GZH Zona Sul




