O Mapa Econômico do Rio Grande do Sul encerrou seu giro pelo Estado debatendo os desafios e as oportunidades para o desenvolvimento da Macrorregião Metropolitana. No evento, realizado nesta quinta-feira, 18 de junho, no Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre, o diretor-geral da CMPC no Brasil, Antonio Lacerda, considerou a insegurança jurídica como um dos principais entraves ao avanço econômico gaúcho. A AGEFLOR esteve representada pela vice-presidente de Administração e Finanças Tatiana Müller.
“As leis existem, existem para todos e devem ser seguidas, porém a ideologia e o ativismo não podem preponderar perante as leis. E aqui eu noto muito isso”, pontuou Lacerda. Nesse sentido ele trouxe a questão do Projeto Natureza da CMPC, que prevê um investimento de R$ 27 bilhões — o maior da história do Rio Grande do Sul — e que inclui a construção de uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro e de um terminal de celulose no Porto do Rio Grande.
No caso do projeto de Barra do Ribeiro, no Centro-Sul do Estado, o licenciamento ambiental está travado, embora a empresa espere conquistá-lo até o final do ano. O projeto tramita junto à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), que aguarda manifestação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) sobre as comunidades tradicionais na região em que o empreendimento deverá ser instalado.
Entretanto, o processo está travado na agência reguladora por conta de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), que considera ser necessária a realização de uma Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) e um aprofundamento nas análises quanto aos impactos ambientais e sociais sobre as comunidades tradicionais da região. A CMPC, por sua vez, diz que tem conduzido o projeto em conformidade com a legislação.
Considerando a situação, Lacerda pontuou que, caso o empreendimento não avance devido aos impasses, isso poderá afetar o ambiente de negócios de todo o Rio Grande do Sul. Na sua visão, o que está ocorrendo é algo inédito do ponto de vista jurídico, baseado em uma interpretação legal.
Conforme o executivo, dirigentes da CMPC estiveram em Brasília em reuniões em que obtiveram apoio do governo federal. “Estivemos com a Advocacia-Geral da União (AGU), a Casa Civil, a Presidência e a Vice-Presidência da República e com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Todos eles são unânimes. Primeiro, reconhecem que estamos seguindo a lei, porque isso é importante, esse é o básico. E reconhecem que, se preponderar o que está sendo solicitado para a CMPC fazer aqui no Estado, vão parar vários projetos no Brasil, porque é algo tão inédito, tão abrangente e tão complexo, que essa jurisprudência, esse ineditismo apoiado pelo ativismo e pela ideologia podem ter um prejuízo para o desenvolvimento”, afirmou Lacerda.
O imbróglio legal chegou a fazer Lacerda afirmar em entrevista ao Jornal do Comércio que cogitava levar o projeto da nova fábrica de celulose ao Paraguai. Entretanto, em entrevista prévia ao evento, ele foi categórico ao afirmar que essa não é mais uma possibilidade. E, durante o painel, ao ser questionado pelo mediador, o editor-chefe do JC, Guilherme Kolling, afirmou que a empresa desistirá da iniciativa caso ela não seja desenvolvida no Rio Grande do Sul.
“Se não sair o licenciamento, não tem projeto, mas não tem projeto em lugar nenhum. Seria uma mancha negativa para a história do desenvolvimento do Estado e certamente afastaria novos investidores do Rio Grande do Sul”, respondeu o dirigente da CMPC.
Logística também é entrave ao desenvolvimento do Estado
As dificuldades logísticas do Rio Grande do Sul têm sido destacadas constantemente nos eventos do Mapa Econômico do RS. Esse foi um tema central nos encontros realizados nas Macrorregiões Sul/Fronteira Oeste, Central, Serra e Norte. Novamente, ao abordar a área Metropolitana, o tema apareceu. Dessa vez, na fala de Lacerda.
De acordo com o executivo, ele não teria recebido atenção da Rumo, concessionária responsável pela Malha Sul ferroviária, quando a procurou para discutir avanços no transporte férreo. “Fui maltratado quando procurei a empresa. Ignorado. No trecho entre Guaíba e Rio Grande, não tem uma ligação ferroviária. E a própria CMPC (que tem sua maior fábrica no município da Região Metropolitana) poderia justificar boa parte da tonelagem necessária para deslocar a carga naquele trecho. Mas não quiseram nem ouvir o que eu tinha para falar”, reclamou.
Para Lacerda, o problema de infraestrutura logística poderia ser resolvido por parcerias público-privadas (PPPs). Além da ausência de malha ferroviária, ele destacou a dependência do Estado no Aeroporto Internacional Salgado Filho, de Porto Alegre, no Porto do Rio Grande — o único do RS no momento — e a falta de qualidade rodoviária, considerando a Freeway como a única grande estrada gaúcha.
Capital humano é oportunidade e diferencial do Estado
Na rodada do painel do Mapa Econômico do RS sobre oportunidades, o diretor-geral da CMPC foi enfático ao elogiar o capital humano do Estado. Para ele, essa é não apenas uma oportunidade ao desenvolvimento econômico gaúcho, mas também um grande diferencial do Rio Grande do Sul.
“O gaúcho é o gaúcho. Ele tem o orgulho e a tradição, muito associado à descendência alemã e italiana. Predomina o amor à terra, à cultura e ao trabalho, a dedicação. Isso é um diferencial tremendo, e eu posso afirmar porque investi em outros estados. E também é por isso que a CMPC está aqui desde 2009. E já investimos R$ 25 bilhões na fábrica de Guaíba na sua expansão e modernização. Originalmente, ela produzia 400 mil toneladas de celulose (ao ano). Hoje, são 2,4 milhões. E quem faz tudo isso, é gente. Somos todos e todas nós”, afirmou.
Ele ainda destacou os impactos do Projeto Natureza na infraestrutura, com a previsão de construção de três terminais portuários, um deles em Rio Grande. Com isso, também serão investidos R$ 140 milhões na dragagem do canal de acesso ao porto. Já os armazéns do complexo deverão ser reformados, podendo ser utilizados por outras empresas.
“Navios maiores poderão entrar no Porto de Rio Grande, que se tornará mais competitivo, isso vai favorecer a indústria de fertilizantes e grãos e outras que quiserem se instalar na região. É isso o que o Rio Grande precisa, precisa de projetos”, complementou Lacerda.
O diretor-geral da CMPC também destacou a geração de empregos e os impactos comunitários do projeto em Barra do Ribeiro. “Justamente onde a CMPC está se instalando e onde quer expandir sua atuação é uma das regiões onde tem o menor PIB, que é na Metade Sul do Estado. Já foi muito rica, mas precisa de um impulso de investimento e nós estamos nesse momento com uma oportunidade importante de R$ 27 bilhões que serão investidos na Metade Sul em uma nova fábrica de celulose do tamanho da que existe em Guaíba”, destacou.
Mapa Econômico traz novos recortes do PIB nas regiões do Rio Grande do Sul
O editor-chefe do Jornal do Comércio, Guilherme Kolling, destacou na abertura do painel Mapa Econômico do Rio Grande do Sul — realizado nesta quinta-feira, 18 de junho, no Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre — três grandes desafios levantados por lideranças regionais: infraestrutura, escassez de mão de obra e impactos das mudanças climáticas na economia.
Ao mesmo tempo, ressaltou que há um conjunto de 100 oportunidades de desenvolvimento distribuídas por todas as regiões, capazes de impulsionar a economia gaúcha nos próximos anos.
Segundo Kolling, ao longo dos 20 encontros realizados ao longo de quatro temporadas do Mapa Econômico do RS desde 2023, dois desafios apareceram de forma recorrente nas diferentes regiões: a necessidade de melhorias em infraestrutura e a dificuldade crescente de mão de obra, agravada pelo envelhecimento da população.
A esses fatores soma-se o impacto climático, considerado um elemento decisivo para o desempenho econômico recente. “Nos últimos seis anos, o Rio Grande do Sul enfrentou quatro estiagens e uma grande enchente, o que afetou diretamente o Produto Interno Bruto (PIB)”, afirmou.
Em 2025, o PIB gaúcho foi de R$ 753 bilhões, representando 5,9% da economia nacional. Em 2019, essa participação era de 6,5%, evidenciando perda de espaço do Rio Grande do Sul em anos marcados por adversidades climáticas.
Kolling também destacou a volatilidade do crescimento estadual em comparação ao cenário nacional onde o PIB brasileiro apresenta uma evolução mais linear, mas o desempenho do Rio Grande do Sul oscila, refletindo a dependência de fatores climáticos, especialmente no agronegócio.
No aspecto populacional, os dois últimos Censos do IBGE mostram que apenas 3 dos 28 Coredes (Conselhos Regionais de Desenvolvimento, microrregiões que formam a divisão oficial do RS) registraram crescimento populacional de dois dígitos entre 2010 e 2022: Litoral, Hortênsias e Vale do Taquari.
A Região Metropolitana perdeu cerca de 700 mil habitantes no período. O Rio Grande do Sul ainda registra um crescimento populacional residual até 2026, mas esse ciclo terminará no ano que vem, quando começa a queda populacional, com projeção de redução de até 2 milhões de habitantes até 2070, caso não haja mudanças estruturais.
O aumento da presença de imigrantes no mercado formal surge como um dado relevante em que o Estado encerrou 2025 com mais de 53 mil trabalhadores estrangeiros com carteira assinada, com destaque para Caxias do Sul e Porto Alegre, além de municípios da Macrorregião Norte em expansão industrial.
Apesar dos desafios, o levantamento identificou 100 oportunidades de desenvolvimento distribuídaspelas cinco macrorregiões do Estado. Entre elas, destacam-se a industrialização de grãos e produção de biocombustíveis no Norte, a expansão da indústria de alimentos e bebidas na Macrorregião Central, investimentos no polo naval e energia eólica na Macrorregião Sul e Fronteira, o crescimento do enoturismo na Serra Gaúcha e o avanço de polos de inovação e saúde na Região Metropolitana.
A metodologia do Mapa Econômico do RS divide o Estado em cinco macrorregiões, a partir das 28 divisões oficiais dos Coredes, agrupadas por proximidade geográfica e afinidade econômica. O estudo cruza dados estaduais, regionais e municipais para traçar uma radiografia detalhada da economia gaúcha.
Kolling ressaltou ainda que o projeto se apoia em uma ampla base de dados, construída a partir de informações públicas, entrevistas e levantamentos próprios do jornal, que já tem tradição em produzir indicadores da economia do Rio Grande do Sul, como o Anuário de Investimentos do RS e a pesquisa Marcas de Quem Decide. “A proposta é entender onde estamos para projetar o futuro”, afirmou.
Fonte: Jornal do Comércio




